23 de dezembro de 2010

Ximbica

Cumprindo promessas, publico uma crônica. A primeira, neste meio de comunicação.

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Ximbica foi, por vários anos de minha infância, o maior xodó de meu pai. Não era filho. Não era irmão. Não era parente ou amigo. Não era cachorro, nem outro animal. Ximbica era jipe.

Sua cor original era amarela. Contudo, por ser bastante velho, o tom amarelado da lataria estava meio apagado. Isso lhe dava um aspecto de branco-encardido. Os tons de amarelo variavam conforme a ação do tempo em cada parte da lataria. A porta do passageiro não abria sempre. Só quando o jipe queria, quando não, só pulando pela janela.

Uma vez ligado o motor, o barulho da lataria era tanto, que as conversas se interrompiam no início do trajeto, para serem retomadas depois do final do trajeto. Os bancos, por sua vez, dançavam conforme o balanço da estrada, e as calotas, mereciam uma devida aposentadoria compulsória.

Ximbica era velho e cheio de defeitos detectáveis à primeira vista. Mas era sem dúvida, deveras charmoso quando erguida a sua capota de lona preta. Isso ocorria sempre que chovia. Era forte como um touro na chuva, enfrentava qualquer estrada de terra, por mais esburacada que fosse. Parecia um valente bandeirante desbravando terras inabitadas. Armazenava em seu histórico, tantos quilômetros que as setas do velocímetro, já haviam caído em alguma parada inesperada.

Foram muitas as aventuras de Ximbica. Participou de tantas peripécias entre amigos e família, que não merecem ser resumidas num parágrafo só. E foi como membro da família que o velho jipe partiu. O coração-motor, barulhento, fundiu de vez quando, numa noite de tempestade, um raio o atingiu. A carcaça de Ximbica foi para o ferro-velho e a sua alma subiu para o céu dos jipes.

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Escrito com todo o amor, em homenagem a quem me ensinou a amar as palavras: meu Pai.
"Pai, eu já sei escrever!"